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Resenha: “Arqueologia nas Terras Bíblicas”

Um manual destinado aos estudiosos da Bíblia não iniciados no assunto


Resenha: “Arqueologia nas Terras Bíblicas”

Neste livro o Dr. Currid desmistifica o significado de arqueologia dado pelo senso comum. Ele esclarece como é irreal a idéia de uma disciplina glamourosa e vinculada ao aspecto aventureiro. Deve-se pensar sobre a arqueologia, segundo ele, como a disciplina que objetiva “descobrir, resgatar, observar e preservar fragmentos enterrados da antiguidade…” (p. 16). Para o autor, a Arqueologia é uma ciência assistente da História e o fato dela ser vista frequentemente como uma ciência social procede porque ela se preocupa com a reconstrução e compreensão do comportamento humano baseada nos fragmentos deixados pelos sujeitos pré-históricos e históricos.

No que tange à gênese da moderna arqueologia, o escritor, citando o já falecido famoso arqueólogo estadunidense William F. Albright, diz que a mesma deu-se em “Herculaneum (1738), localizada ao longo da baía de Nápoles” (p. 18). Quanto a arqueologia da Bíblia Currid categoriza-a como arqueologia pré-clássica e como uma subdivisão da arqueologia Siro-Palestina.

O autor destaca o estágio atual no qual se encontra a disciplina. Diferentemente da arqueologia praticada em meados do século XIX, na Palestina, a arqueologia atual é desenvolvida a partir de modernas tecnologias tais como análises computadorizadas e a organização de dados fundamentais. A evolução da disciplina é descrita no livro a partir da indicação das seguintes fases: investigação individual (1838-65), investigação por sociedade (1865-90), a escavação de Tell (1890-1914), arqueologia sistemática (1918-40), uma revolução metodológica (1948-67) e novos horizontes (1867 – ).

O rumo que a arqueologia irá tomar é uma questão levantada brevemente no livro. Muito embora a arqueologia esteja progredindo na Palestina, existem alguns problemas que podem interferir no avanço da mesma, a saber: o alto custo de uma temporada de escavação de grande porte, a opção de alguns arqueólogos em não divulgar os resultados de suas pesquisas e a questão motivacional quanto às escavações na Palestina.

A prática da arqueologia nas Terras Bíblicas, segundo o autor, é diferente daquela praticada nos chamados sítios de um período (nesses, o tempo de ocupação pode ser medido em décadas). Escavações praticadas no Oriente Médio raramente estão relacionadas a “sítio de um período”, mas “focaliza-se em vilarejos, vilas e cidades que têm sido ocupadas repetidamente por centenas e até mesmo milhares de anos” (p. 37).

No dia-a-dia em um sítio arqueológico o arqueólogo não atua como um escavador cego. Antes de começar o trabalho de escavação, uma das partes do trabalho arqueológico, alguns dados são obtido hora pela própria Bíblia ou por outros escritos antigos que tratam sobre a região e/ou o sítio. A obtenção dos dados preliminares ocorre pelo uso do método de “pesquisa arqueológica”[2]. Por essa via pode-se prever com alguma segurança o que está no interior do Tell[3].

No trabalho arqueológico em Israel destacam-se um dos dois métodos seguintes: pesquisa de regiões e exame de sítios individuais. O primeiro tem como meta primária “determinar a história e padrões dos povoados” (p. 67). Sobre o segundo, de acordo com R. Ibach, citado por Currid, “quaisquer artefatos significantes que estejam bem próximos um do outro são considerados um sítio. Então um sítio pode ser tão pequeno como um único, fragmentado marco milhário, ou tão grande como um Tell importante” (p. 65).

O autor salienta que a identificação de um sítio não é um trabalho simples. O maior problema a se enfrentar é que um único sítio, em particular, pode ter mais de um nome. Para a reedificação do mundo bíblico é fundamental a identificação de um sítio. Currid alista e discorre sobre alguns recursos que podem ser usados para a identificação de um sítio. São eles: nomenclatura moderna, materiais textuais e a investigação arqueológica.

Concluído os estudos sobre os registros históricos vinculados ao sítio, sua identificação e a pesquisa arqueológica, agora o arqueólogo parte para a escavação. O trabalho de escavação se dá de trás para frente – todo material depositado por último será o primeiro a ser escavado. Não há uma concordância quanto à maneira mais adequada para a escavação. Citando Mortimer Wheeler, arqueólogo britânico, ele diz que “não há maneira correta de se escavar, mas há muitas erradas” (p. 81). Os métodos de escavação Reisner-Fisher[4] e o Wheeler-Kenyon[5] são citados pelo autor que aponta suas virtudes, fraquezas e soluções para se superar seus respectivos problemas.

Quanto às escavações atuais alguns passos elementares têm sido dados pelos projetos de escavação na Palestina. Os passos são os seguintes: escavação, registro apropriado e publicação. O autor comenta cada um deles. Sobre o primeiro ele diz que a escavação é feita a mão e, dependendo da situação, ferramentas diferentes são usadas. Quanto ao segundo, é da competência do arqueólogo estabelecer um sistema de registro detalhado e conciso, pois toda escavação implica em destruição. Em relação ao terceiro, ele diz que o resultado, depois de uma análise e interpretação sistemáticas dos escombros de uma escavação, deve ser publicado, pois esse é o significado prático da reconstrução da escavação de um Tell.

Na página 91 é descrita uma argumentação sobre o valor do estudo da cerâmica e dos fragmentos de potes em toda escavação na Palestina. Aqueles que desprezam o valor da cerâmica para o trabalho arqueológico podem se encontrar na mesma situação de Gottlieb Schumacher[6] que, por causa de sua “ignorância e evitação […] com relação ao trabalho cerâmico em Megido no início do século XX fez com que seus achados fossem de pouco auxílio aos arqueólogos mais recentes” (p. 91).

Currid levanta os seguintes tópicos relacionados à importância da cerâmica na pesquisa arqueológica: a importância cronológica da cerâmica, a importância epigráfica da cerâmica e a importância sociológica da cerâmica.

Seguindo o processo de escavação o autor ressalta o surgimento de características arquitetônicas que podem construções ou fortificações. Passeando pelas Eras da Antiguidade, a partir da Antiga Idade do Bronze indo até a Idade do Ferro, ele aponta quais tipos de arquiteturas da Palestina antiga podem ser encontradas (p. 99-108). Depois, ele tece alguns comentários a respeito dos materiais de construção disponíveis (p.108-10).

Tratando sobre os pequenos achados em uma escavação, o Dr. Currid diz: “um dos grandes momentos na vida de um escavador é a descoberta de um objeto antigo que possa segurar em suas mãos” (p. 111). Ele define tais “pequenos achados” como sendo qualquer objeto manufaturado descoberto em um Tell. A arquitetura e a cerâmica não fazem parte desses “pequenos achados”. A classificação deles consiste em cinco categorias básicas: metal, pedra, osso, madeira e vidro. Da página 112 a página 116, o autor realiza alguns comentários sobre essas categorias.

Concluindo seu trabalho, o autor destaca a arqueologia em uso apresentando um exemplo do trabalho arqueológico do sítio de Betsaida[7] para ser analisado do início ao fim. A razão dele propor a análise desse trabalho arqueológico é porque o sítio de Betsaida “oferece exemplos concretos, específicos de cada um dos procedimentos arqueológicos examinados neste livro” (p. 117).

O livro Arqueologia nas Terras Bíblicas foi escrito com a finalidade de oferecer informações preliminares a todo entusiasmado estudante da disciplina Arqueologia. Deve-se destacar também a preocupação didática do livro que é bem escrito, de fácil compreensão, bem referenciado, apresentaça muitas figuras e fotografias. É um trabalho que serve como uma excelente ferramenta de estudo para professores e alunos de Arqueologia, História e Teologia.

[2] Definida como “o trabalho de descobrir atributos das culturas humanas através de características e artefatos expostos na superfície.” (Currid citando J. R. KAUTZ)

[3] Um outeiro consistindo de ruínas de cidades construídas umas sobre as outras no mesmo local.

[4] Método que enfatiza a ampla exposição arquitetônica. Esse método arqueológico recebeu essa nomenclatura por causa de G. A. Reisner e C. S. Fisher, arqueólogos que o aplicaram nas décadas de 20 e 30 em Megido.

[5] Método que dá ênfase a identificação das camadas do solo. Recebeu esse nome por causa de Mortimer Wheeler e Kathleen Kenyon. Esta, em concordância com Wheeler, disse: “a ciência da escavação é dependente da interpretação da estratificação do sítio, ou seja, das camadas do solo associados a ele” (1957, p. 69, apud CURRID, 2003, p. 83).

[6] (1857-1925). Arqueólogo alemão.

[7] Era uma cidade portuária na costa norte do Mar da Galiléia, frequentemente mencionada nos relatos dos evangelhos do Novo Testamento. Foi uma cidade que teve um papel importante no ministério de Jesus Cristo.


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1 Comentário

  • Maria Raica Barbosa

    muito bom o comentario desse livro. Ja vou comprar um para minhas pesquisa

    [Reply]

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